TEIA – discurso de abertura

TEIA
Abertura

Chegamos. Há menos de dois anos, atendendo pedido do Secretário Executivo Juca Ferreira, do Ministro Gilberto Gil e do Presidente Lula, o Programa Nacional de Cultura, Educação e Cidadania – Cultura Viva, teve início. Nosso objetivo: unir Arte com Educação, Cidadania com Economia Solidária e fazer isso chegando naqueles lugares onde o Estado nunca antes chegou. E chegar ouvindo, conversando com nosso povo, acreditando na inventividade e na solidariedade do brasileiro.

Assim surgiram os Pontos de Cultura. A seleção foi por edital público; em 2004 recebemos 850 propostas, das quais 220 tornaram-se Pontos de Cultura. Em 2005, novo edital e 2300 projetos inscritos, com 400 selecionados, sendo que 200 já estão conveniados. De partida, evitamos o caminho da imposição ou do dirigismo, que, mesmo quando bem intencionados, carregam toda uma carga de preconceitos, imposições e hierarquias. Preferimos perguntar.
Disponibilizamos para cada Ponto até R$ 185.000,00 e o dinheiro é aplicado conforme a necessidade de cada um. Em alguns lugares pode ser a adequação de espaço físico, em outros a compra de equipamentos, ou então, como na maioria, a realização de atividades, cursos e oficinas culturais. E o dinheiro não é repassado em uma única vez, mas em 5 parcelas semestrais e conforme o plano de trabalho definido por cada proponente. Como elemento comum a cada Ponto, o estúdio multimídia, cujos primeiros 100 estarão sendo entregues aqui na TEIA; para os demais Pontos, estamos repassando recursos de modo a adquirirem diretamente seus equipamentos. Com isso vamos compondo a rede, ou melhor, tecendo a rede. E de uma forma diferente, mudando a tradicional relação entre Estado e Sociedade, no lugar de concentrar, liberar energias, no lugar de impor, dispor.
A este novo conceito chamamos de Potencialização das Energias Sociais. E potencialização com Encantamento. Encantamento de quem busca na Raiz de nossa cultura os elementos para a nossa Emancipação. Onde encontrar mais espírito de partilha que na tradição popular? Como uma folia de Reis sobrevive por séculos? Não é pela troca, ou pela generosidade? Onde cada morador dá um prato de comida ou adereço que permite aos caminhantes continuarem sua caminhada? O que pode haver de mais sagrado que uma nascente de água ou cachoeira? Templos do Candomblé, sagrados porque a vida tem que ser sagrada. Ou então o nosso futebol, gingado, com molejo, um balé em campo que encanta o mundo. De onde ele veio se não da ginga da capoeira, dos escravos fugidos, da república livre de Palmares, dos quilombos e dos tombos na luta pela liberdade. Mesmo assim continua sendo uma luta que é dança.
Mas ficar presos apenas às tradições não basta, pois estas também são inventadas, já nos ensinou o historiador Eric Hobsbawm. É preciso ir além, romper preconceitos, transformar. E não é nas favelas, assentamentos rurais e periferias das grandes cidades que encontramos o germe da partilha e da solidariedade popular? Falam da violência das favelas como se essa fosse a marca de seus moradores. Pelo contrário, lá vive gente trabalhadora, criativa. Os morros do Rio, por exemplo, nos deram Donga, Cartola…(a quem peço abenção). Dizem que os Sem Terra são violentos, baderneiros. É isso que nos mostra a mídia e toda a carga ideológica que ela transmite. Aqui na TEIA vamos ver grupos de teatro, de dança, músicas que dizem: “Gentileza gera gentileza”. Mas se negamos gentileza aos filhos desta terra, transformamos vítimas em algozes, como vimos no documentário de MVBill; o rapper, que, em suas próprias palavras, “poderia ter sido um guerreiro do tráfico, mas que foi salvo pelo hip hop” este movimento que une os jovens excluídos em todo mundo. Certo dia, na inauguração do Ponto de Cultura no assentamento rural de Brazlândia, um menino do Ponto de Cultura – Atitude, de Ceilândia, também no Distrito Federal constatou que, naquele momento, que “os jovens excluídos da cidade estavam se encontrando com os excluídos do campo”.
“Uni-vos”, disse Marx em seu manifesto. Aqui temos Pontos de Cultura das favelas, periferias, trabalhadores sem terra, moradores de pequenos municípios, índios, quilombolas… E nos unimos com arte. Sim, porque a arte é a habilidade de nosso povo; um povo que se transforma no contato com o outro e que depois retoma suas raízes em novas bases. A alienação da vida, o mercado, a indústria cultural ditatorial e impositiva, a brutalidade da vida cotidiana submetida à busca incanssável pelo dinheiro, tentam desmoralizar esse jeito generoso de ser, apresentando-o como “jeitinho”. Uma forma esperta de fazer com que tenhamos vergonha de nós mesmos e assim milhões se sumetem à este ser onipresente e onisciente que é o mercado. Vão dirigindo nossos gostos, pasteurizando nossos dias, roubando nossas almas.
Mas nos unimos com arte. Aqui na TEIA tem arte solidária, tem inovação estética e ética. E é isso que queremos mostrar. Mostrar e transformar e mostrar de novo e transformar novamente. Quem veio pensando em encontrar uma mostra folclórica (ou “cultura em conserva”) enganou-se. Também não são ações sócio-educativas voltadas para os pobres. Aqui tem arte de vanguarda, inovação, reflexão… tem também o sócio-educativo para os pobres. Por que não? Esse é um dos caminhos que encontramos para tornar mais suportável nossa vida tão maltratada: unir arte, com cidadania e economia e entender que tudo isso é cultura. “A solução dos problemas do Brasil virá da escassez”, é o que estamos fazendo com os Pontos de Cultura, e fazendo com os “os de baixo”, como nos ensinou Milton Santos.
Na TEIA os Pontos de Cultura vão se encontrar com os núcleos de Economia Solidária, cooperativas e fábricas recuperadas por operários e hoje dirigidas por eles, também temos palestras conceituais, metodológicas, oficinas, produção audiovisual. Aqui o governo se encontra com o povo e há o esforço de muitos ministérios secretarias e orgãos governamentais. Mas a TEIA não pode ser, e não é, uma vitrine de programas de governo. Pelo contrário, aqui é um espaço para o protagonismo da sociedade. Uma sociedade que se desenvolve com autonomia e que se empodera até mesmo nas frustrações e tropeços.

E não são poucos os tropeços. As exigências para um conveniamento com as “artesãs ribeirinhas de Santarém” , são mesmas que as estabelecidas para a transferência de milhões ou bilhões de reais para poucas grandes instituições. Estas sim, muito bem preparadas, com seus consultores, advogados, economistas… Mas quem não caminha não tropeça. Aquiles que são Pontos há mais tempo também sabem das dificuldades encontradas na simples transferência de bolsas para jovens. E o povo, principalmente o que não está aqui, como se frustra com tanta derrapagem no dia a dia da política. Mas o caminho foi aberto e não nos perderemos entre as árvores sem ver a floresta.
A TEIA serve para isso, é um momento de parada, de reflexão para a ação. O que pode surgir deste encontro? Ainda não sabermos, mas a energia vai sendo liberada para esse encotro de vontades, para esse desejo de transformar o nosso país em um país “bom, belo e justo” para todos, nesta magnífica aventura chamada Brasil.
Boa TEIA a todas e a todos!

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2 Comentários

  1. Mirane
    Escrito setembro 5, 2009 em 6:12 pm | Permalink

    ENFIM!!! Bem vindo ao mundo dos blogs e do twitter!!!

  2. Escrito novembro 1, 2009 em 4:11 am | Permalink

    Mirane, querida

    agora entrei para valer!!

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