Por um novo comunismo…

O secretário de Cidadania Cultural do MinC, Célio Turino, acredita que os Pontos de Cultura darão uma nova direção ao processo civilizatório brasileiro

Comunista de carteirinha. Utópico. Idealista. Num mundo em profundas mudanças, onde até já foi decretado o fim da história ou até mesmo o fim da arte, o secretário de Cidadania Cultural do Ministério da Cultura, Célio Turino, idealizador dos Pontos de Cultura, acredita numa mudança radical no Brasil. Aliás, ele se define também como um radical. Mas um radical “soft”. Quer buscar, através do seu projeto, a essência do Brasil profundo. Brasil, segundo ele, ignorado pela grande mídia mas que, nos próximos anos, dará “um grande salto dentro do nosso processo civilizatório”.

E coloca a maioria de suas fichas neste “radical” processo de mudanças a partir dos Pontos de Cultura. São 2.500 equipamentos espalhados por todo o País produzindo cultura. Mas de forma diferente. O sentido é horizontal, jamais vertical. De baixo para cima e não ao contrário. Como o método do educador Paulo Freire.

Autor do livro “Ponto de Cultura: o Brasil de baixo para cima”, Turino acredita que essa grande teia dará um salto de qualidade no processo cultural brasileiro. São pequenas comunidades produzindo conteúdos. Cita entusiasmado três projetos exemplares do Ceará: Acartes – Academia de Ciências e Arte, no Pirambu; da Fundação Casa Grande, em nova Olinda, no Cariri; e Flores, em Russas.

Idealizado em 2004, os Pontos de Cultura têm uma história singular. Durante quase seis anos de trabalho, segundo o Secretário de Cidadania Cultural, os resultados foram além dos objetivos do MinC. Cita números veiculados pelo IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. O projeto, segundo ele, atinge diretamente oito milhões de pessoas. Um número considerável “num País cuja cultura sempre foi manipulada pelas classes dominantes”. Tribos indígenas – explica – estão utilizando equipamentos de ponta e produzindo filmes. São os novos protagonistas da cultura no Brasil.

O investimento do MinC no projeto foi de 350 milhões. Nos últimos anos, estados e municípios deram uma contrapartida estimada pelo secretário em 100 milhões de reais.

Hegemonia

Todo o processo se deu de forma pacífica, assinala Turino. Mesmo num País patrimonialista, onde as verbas para cultura se concentram historicamente no eixo Rio-São Paulo. “Não houve maiores sobressaltos, já que o projeto é apartidário. Houve, sim, uma convergência em torno das ideias do projeto. Tanto que foi um dos programas do MinC mais aplaudidos durante a recente Conferência Nacional de Cultura, realizada em Brasília”, observa.

Mesmo diante de um processo que diz “pacífico”, Turino dispara sua metralhadora para dois inimigos: o que chama de “classe dominante” e os meios de comunicação. Tanto a dita “classe” quanto os jornais, revistas e tevês olham pouco para o Brasil profundo. “Se espelham no que vem do exterior. Nunca nos Pontos de Cultura. Cultura produzida por índios, favelados, enfim, o povo brasileiro que vive nos diversos rincões do País não interessa à grande mídia. Um povo, aliás, que produz cultura de forma criativa, autêntica e singular”.

O secretário de Cidadania Cultural do MinC enfatiza e lamenta o procedimento dos “jornalões” com relação aos Pontos de Cultura: “um processo ignorado completamente pela imprensa do Rio e São Paulo”, repete.

Uma espécie de imprensa do eixo do mal? Ele chega a elogiar os jornais regionais que dão cobertura aos Pontos de Cultura. “Uma teia viva, de troca simbólica e muita solidariedade”.

- A grande imprensa – lamenta – manipula tudo. O sistema desrespeita os reais valores do povo brasileiro. Uma senhora, moradora do Pirambu, elogiou o Acartes. Ela assinalou que o projeto tirou o bairro das páginas policiais, levando-o para as páginas de cultura.

Violência

Mesmo com os Pontos de Cultura, a violência ainda é um dos principais problemas das grandes cidades. Em Fortaleza, vem tomando dimensões alarmantes. Turino concorda, assinalando que, nos grandes centros, de uma forma macro, ainda há muito por fazer. Mas defende, em seguida, que os Pontos são de importância fundamental para as mudanças que preconiza.

Célio Turino diz que, no momento, o projeto tem que dar um salto para o futuro. Por isso, a importância da Teia Brasil 2010, que começa na próxima quinta em Fortaleza, aglutinando os Pontos de Cultura de todo o País. “Vamos avaliar, brigar por uma legislação que garanta sua continuidade. Reconhecer que a cultura é um processo. E cabe ao Estado, ao governo, a continuidade de projetos como este. Mudanças que se dão de forma irreversível para o povo brasileiro. O Brasil ainda se encontra adormecido para muitos. Mas os Pontos de Cultura desmentem essa realidade”.

O gestor lembra que o projeto foi lançado simbolicamente, em 2004, no pavilhão onde se realiza a Bienal de Artes de São Paulo, “centro do estereótipo, de uma suposta sofisticação cultural”. O motivo principal foi chamar a atenção para a cultura que se desenvolve nos mais distantes rincões do País e não apenas em espaços reconhecidos como uma espécie de templo maior da cultura brasileira.

Globalização

Turino não ignora o processo de globalização ou hibridização cultural debatida por acadêmicos em todo o mundo. Multiculturalismo? Turino concorda com essa troca de informações culturais entre países em escala global que, para alguns estudiosos, pode afetar até a questão da identidade. Argumenta que países como a Itália, Espanha e Argentina têm projetos semelhantes aos do Ponto de Cultura. Quer dizer, a ideia brasileira, aos poucos, se espalha pelo mundo. Já é tema também do Mercosul. “O Brasil está oferecendo alternativas para a superação de problemas econômicos, políticos e sociais de uma forma integrada”, diz.

Depois de tanto rodar pelos Pontos de Cultura, Célio Turino considera que chegou, inclusive, a perder o sotaque paulista. Por isso mesmo, define-se como brasileiro. Cidadão do Brasil. Define-se também como um radical. Um utópico com os pés no chão. É totalmente descrente dos valores das “classes dominantes com seu egoísmo desmedido. Egoísmo que não levará a lugar nenhum”. Define-se, ainda, como comunista. E acredita na essência do comunismo. “Não no comunismo de Estado do passado. Mas em mudanças oriundas da base da sociedade, da cultura popular. Algo sagrado como a própria vida. O que faz sobreviver durante tanto tempo uma Folia de Reis? Ora, a própria vida”. Acredita no bem comum, tendo o povo como protagonista que, através de estúdios de multimídia, narrará sua própria história.

A ideia dos Pontos de Cultura, ainda segundo Turino, também permeou pensadores importantes como Milton Santos, Darcy Ribeiro, Mário de Andrade. Darcy Ribeiro acreditava que o Brasil “será a nova Roma”. “O processo é simples, polifônico. A mudança vem da articulação, sociabilização da cultura, de uma espécie de articulação de redes”.

JOSÉ ANDERSON SANDES
EDITOR DO CADERNO 3 – clique aqui para ver o site

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