V – Pontinho de Cultura

V – Pontinho de Cultura

“O que é, o que é?
Quando se perde
Não se encontra mais?”
(Resposta: O Tempo)

Entre adivinhas, brincadeiras de rodas, construção de brinquedos, jogos e brincadeiras cantadas, o Ponto de Cultura Bola de Meia, no Vale do Paraíba, em São Paulo, desenvolve sua ação. Virou Pontão. E ação dos programas Cultura Viva e Mais Cultura.
Um casal, Jacqueline Baumgratz e Celso Pan, se juntou com músicos, poetas, psicólogos, educadores. Gente com o mesmo propósito e formação dos dois. Surge um Ponto de Cultura. Moram em um sobrado, ofereceram sua própria casa; embaixo, as instalações; ao fundo, um teatro bem funcional, mais algumas salas, administração e quintal (sempre é bom ter um quintal para brincar); e recebem crianças, muitas crianças. Com o coração:

“Eu hoje andei por aí
e descobri como as coisas são
e tudo que eu vi não era igual

as flores são
diferentes
os bichos são
diferentes
e a gente é
diferente

E o que temos de igual?
É o coração que bate assim
Tum tum; tum tum”. (Poema de Jacqueline Baumgratz)

Cultura infantil, ludicidade, brincadeiras. Somos Ludens, Homo Ludens, disse o filósofo Huizinga. Para ele, “a essência do espírito lúdico é ousar, correr riscos, suportar a incerteza e a tensão”. Um aprendizado que praticamos desde criança. Depois nos formatamos. O sentido da ação Pontinho de Cultura é reencontrar este espírito, restabelecer vínculos intergeracionais e perceber a criança enquanto produtora de cultura, quando realidade é imaginação.
Novamente uma rede, aberta e variada. Há muita gente fazendo muita coisa bacana para as crianças. E com as crianças. E as crianças por si mesmas. Dona Edna, em uma vila de pescadores, na saída de Maceió, abriu sua casa para receber as crianças, hoje ela mora em um quarto, tudo mais é Ponto de Cultura, ou Pontinho, seu Poleiro dos Anjos. E Garatuja, com os primeiros rabiscos. E ambientes lúdicos no hospital Pequeno Príncipe, de Curitiba, quando crianças com câncer só têm o hospital para brincar e veem o mundo pela janela de seus quartos. Mesmo assim brincam, se divertem. Em qualquer hospital os Doutores da Alegria podem chegar. Pelo interior do Brasil, crianças continuam correndo atrás de Sacis, ficam atentas aos redemoinhos e enlaçam esse menino esperto de uma perna só, brincam com nossa tradição, Sosaci. Por aí vão os Pontinhos, uma rede com 215.

O Pontinho é o locus, seja um espaço físico ou estado de espírito, em que a cultura infantil se desenvolve. Não a cultura que o adulto passa para a criança, mas a cultura do próprio ambiente infantil. A cultura em que a criança de oito anos ensina a de seis e a de seis, a de quatro; o primeiro estágio de uma consciência grupal. Se a brincadeira infantil representa, muitas vezes, a imitação dos adultos, sua transmissão é feita pelas próprias crianças e assim ela se mantém. Há preconceitos que acompanham essas brincadeiras? Sem dúvida. Mesmo assim, melhor “deixar fazer”, assegurar o espaço da plena liberdade, criando ambientes de compreensão comum e amizade. Deixemos as crianças brincar e que elas descubram o mundo com suas brincadeiras. E brinquemos com elas. Ponto.

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