Entender a cultura como processo pressupõe entrelaçar as diversas dimensões da vida. Com a posse do ministro Gilberto Gil o ministério adotou um conceito ampliado de cultura, antropológico, cultura como produção simbólica, cidadania e economia. O programa Cultura Viva e o Ponto de Cultura partem desse mesmo conceito, mas com o desenvolvimento do programa percebi que era necessário ir além.
A dimensão da arte não pode ficar restrita ao campo do simbólico. Para além da produção de símbolos, a arte envolve habilidades, todas as habilidades humanas (do latim artem, habilidade) e a apreensão dos significados por meio dos sentidos, por meio de uma percepção sensorial. O Ponto de Cultura envolve uma quebra nas narrativas tradicionais, monopolizadas por poucos, e a partilha do sensível é estratégica para este deslocamento narrativo, em que os “invisíveis” passam a ser vistos e a ter voz. Não se trata aqui da defesa do “belo universal” ou da “arte gratuita”, metafísica, mas da própria realização da estética. A arte reflete aspirações e contradições do seu contexto histórico e é, ao mesmo tempo, produto e vetor das transformações sociais. Para além da preocupação exclusiva com a beleza, busca-se tudo aquilo que permita a afirmação cultural da subjetividade das pessoas, grupos e classes sociais. E essa busca deve ser feita com encantamento, beleza e qualidade, pois sem estes atributos não se rompem barreiras e os estereótipos permanecem.
O mesmo ocorre com a dimensão cidadã. A conquista plena de direitos e a inclusão no diálogo cultural são essenciais; mas circunscrever Ponto de Cultura à dimensão de cidadania ou da cultura popular é uma redução. Mais grave são os discursos fáceis da “inclusão cultural” ou da “inclusão social por meio da cultura”. Ponto de Cultura atua com cultura popular, inclusão social e tem um claro papel na cidadania, mas ele é, sobretudo, um programa de cultura. Cultura como interpretação do mundo, expressão de valores e sentimentos. Cultura como intercompreensão e aproximação. Neste sentido seria mais apropriado classificar a ação do Ponto de Cultura no campo da ética.
Com a economia também é preciso ir mais fundo. Que economia queremos? De um lado há a economia da cultura (pesquisa do IBGE aponta que 8% do PIB advêm da cultura), é fato. Mas em que contexto se insere a chamada “economia criativa”? O capitalismo se apropria de todas as riquezas e bens produzidos sobre a face da Terra (e também sob; e, no futuro, se puder, para além do planeta) e as transforma em mercadoria, sejam bens sólidos ou imateriais. Inserir a cultura nesse processo de mercantilização e alienação da vida não é o objetivo do Ponto de Cultura. Em Pontos isolados, quando falta aprofundamento sobre qual o sentido da economia, o pragmatismo e a submissão ao mercado até acontece; ou, se não acontece, se deseja (até porque os que querem se vender nem sempre encontram compradores), mas o caminho de uma rede social da economia vai em outra direção. O entendimento que está sendo construído no processo é que, se a economia determina a cultura, a cultura também determina a economia. Ao adotar uma nova atitude cultural podemos modificar as relações econômicas, abrindo caminho para uma economia solidária, com consumo consciente, comércio justo e trabalho colaborativo. Vejo a fagulha dessas novas relações econômicas, sobretudo na Teia, com o encontro dos Pontos de Cultura e os Núcleos de Economia Solidária, do Ministério do Trabalho.
Ponto de Cultura é integração na diversidade. “A parte está no todo, o todo está na parte”; a física quântica comprova esse conhecimento milenar, que foi abandonado pela fragmentação da vida. Passados cinco anos de implantação dos Pontos de Cultura, observo que a reaproximação entre estética, ética e economia é essencial para a organização da vida humana e pode cimentar uma nova significação para a cultura e para a própria sociedade. Não há como separar um do outro, os 3 “E” da cultura:
Ética.
Estética.
Economia.

Um Comentário
Grande Célio !
Bela e profunda reflexão… bora no multiverso colirido da cultura que é nossa, que é de todos, é humanidade.
Abração
do kiko.